A saga de Assado Cozido: A inteligência a perder de vista
- Mónica Almeida
- Jul 11, 2024
- 3 min read
Updated: Oct 28, 2024
No já venerável palácio de vidro que é a sede da inovadora (leia-se: arcaica) empresa Viva Resiliente, um turbilhão de emoções e um drama corporativo digno de um guião de telenovela mexicana emergiam, quando Assado Kozido, o magnânimo Director Executivo, decidiu despedir Maria, a fulgurante gestora de marketing que ousava brilhar onde ele há muito já só fazia sombra.

Assado Kozido, aos seus respeitáveis 56 anos, tinha a postura de um imperador intemporal, sábio e detentor de todos os segredos do ofício. No entanto, em vez de comandar legiões, a sua maior batalha era agora combater algo mais temível: a inteligência juvenil de Maria, mente brilhante de 36 anos que resplandecia no departamento de marketing como um farol de modernidade.
A Ascenção e Queda de Maria
Maria não era uma profissional comum. Despertava admiração (e certa dose de inveja) por onde passava. Com ideias ousadas e uma criatividade que transbordava, Maria revolucionava as estratégias de marketing, fazendo crescer a empresa de maneiras que Assado apenas podia sonhar nos seus devaneios sobre “os velhos tempos”. A cada reunião, a cada projecto, Maria traçava um percurso que na prática parecia uma corrida de obstáculos apenas para Assado Kozido.
Ora Assado, que há muito encontrara conforto na sua poltrona de couro e no seu raciocínio de décadas passadas, viu-se subitamente numa posição desconfortável. A cada vitória de Maria, algo nele diminuía um pouco mais. As suas arrojadas ideias de marketing tradicional - aqueles panfletos coloridos que tanto sucesso tiveram em 1985 - era agora substituídos pelas brilhantes estratégias digitais e simplistas de Maria. A jovem gestora parecia lidar com o marketing e com as ideias inovadoras como quem respira. E isso, claro, era inaceitável
O Efeito Imediato
A notícia do despedimento de Maria desceu como um vendaval pela empresa. “Com efeitos imediatos” dizia o comunicado frio e impessoal, transmitido com a urgência de quem afasta uma ameaça letal. De um momento para outro, a mente mais engenhosa do marketing da empresa estava desemparelhada. Logo, se percebia que tal decisão não decorria de erros profissionais, má gestão ou qualquer falha concreta. Não, o problema de Maria era a sua competência esmagadora e o brilho ofuscante que lançada sobre a gestão de Assado.
O próprio Assado, ao ser questionado pelos mais atrevidos nos corredores da empresa, indagava sobre a súbita decisão, proferia um vago e evasivo “Diferença de visão estratégica”. O que na verdade queria dizer era “Não suportava mais a ideia de acordar todas as manhãs sabendo que alguém mais nova e mais esperta estava a destacar-se sob o meu comando.”
Um novo horizonte, mesmas estrelas
Assado acreditava ter resolvido o problema. Afinal de contas, reina a paz que o formidável espírito inovador de Maria foi eliminado. Com um sorriso de suave triunfo, sentou-se na sua vasta sala, imaginando a eternidade do seu trono seguro enquanto o departamento de marketing batalhava para encontrar um substituto à altura. Quem sabe, talvez até decidisse resgatar alguns daqueles folhetos de 1985. Aquilo sim, era marketing eficiente.
Mas, oh doce ironia, o mercado corporativo não perdoa.
As acções inovadoras de Maria deixaram uma marca profunda noutros corações empresariais - logo bem depressa surgiriam novas ofertas para a jovem gestora. Assado, sem dar por isso, havia libertado um talento que a concorrência estava mais disposta a agarrar. Enquanto Maria ascendia noutro palco, a Viva Resiliente Lda redescobria como se navega o delicado e moroso processo de reinvenção, sem Maria, e novamente sob a sagacidade anacrónica
de Assado.
Epílogo Pintado de realidade:
Pode ter sido com um toque de vingança velada, ou talvez admiração perversa do seu próprio reflexo que Assado Kozido decidiu despedir Maria. Contudo, no grande palco corporativo, o guião recorda-nos ironicamente que a única verdadeira inteligência é saber quando deixar outras estrelas brilharem - algo que Assado, infelizmente só entenderá na sua reforma.
A tragédia revelava-se completa: ao tentar proteger o seu posto, esqueceu-se de que mais vale uma tocha acesa por perto, que uma jogada na escuridão.


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