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A banalização do marketing enquanto profissão

  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

O que é o marketing senão um dos mais gloriosos e incompreendidos ofícios do nosso tempo? No entanto, para muitos, marketing é apenas um sinónimo pomposo para "decoração" ou "publicidade". E não é de se estranhar, vivendo numa sociedade onde todos, do porteiro ao presidente, se proclamam especialistas de marketing. Afinal, qual é a dificuldade de criar uma campanha publicitária, certo? Já a engenharia, essa sim, ninguém se atreve a palpitar sem um diploma na parede.


Imaginem a Maria, diretora de marketing de uma respeitável empresa. Ah, Maria! Mulher de fibra, mas infelizmente vítima do maior equívoco sobre a sua profissão. Para os colegas de trabalho, Maria é aquela que organiza as festas corporativas, escolhe a cor dos panfletos e aprova os slogans que farão os clientes rirem (ou bocejarem). Pouca gente sabe — ou quer saber — que Maria deveria estar a gerir budgets, planear estratégias a longo prazo e coordenar uma miríade de iniciativas que incluem desde o estudo de mercado até à análise de dados.


Certamente, qualquer entendedor de marketing diria com ar blasé: "Marketing é coisa de mulher". E que mal há nisso? Sim, mulheres são notoriamente eficientes em comunicação. Porém, relegar o ofício ao mundo dos babados e glossários de moda é um desserviço. O que Maria realmente faz? Ah, decerto, ela comunica... mas é uma comunicação unilateral, puramente decorativa e frequentemente repleta de desconhecimento estratégico. A maior ironia? Maria é apenas um exemplo figurado. Histórias assim multiplicam-se em cada esquina de Lisboa e Porto, onde diretoras de marketing são mais decoradoras de montras digitais do que estrategas de mercado.


E assim seguimos, numa sociedade onde inovação é sinónimo de complicação. Pobre do criativo que tenta fazer o simples! Ao invés de simplicidade, criam-se camadas e camadas de complexidade inútil, tudo para parecer "inovador". Nada é mais português do que transformar um limão numa obra de arte conceitual quando tudo o que precisamos é de um copo de limonada refrescante.


Voltando à Maria, certos dias ela até ri-se de tudo isto. No entanto, essas risadas são uma capa, pois só ela sabe o esforço hercúleo que é nadar contra esta corrente. Maria não é a típica figura de marketing que todos desenham nas suas mentes limitadas. Ela tem visão, mas a sua visão é obscurecida pelo véu da ignorância generalizada que cerca a sua função.


Quantos de nós já nos deparamos com aquele colega que, após assistir a um vídeo do YouTube sobre "10 dicas de marketing", se proclama mestre no assunto? Ou aquela pessoa que acha que marketing é só sobre ter muitos seguidores no Instagram? Essas percepções reducionistas não fazem justiça à complexidade e à importância real do marketing. Enquanto isso, em engenharia, ninguém ousa opinar sem um cabedal de estudos e experiência, porque sabemos que um pilar mal colocado é a ruína certa.


E para as Maria e todos os profissionais de marketing que lutam para provar seu valor num mundo que só vê decoração, ficam minhas sinceras reverências. O vosso trabalho é mais do que escolha de cores e palavras bonitas. É arquitetura de marcas, é ciência de consumo, é tudo aquilo que muitos não veem ou não querem ver.


O que se espera dessa sociedade tão entendida e pouco criativa? Ao menos, que comece a valorizar o verdadeiro marketing. É preciso reconhecer o estratégico por trás do estético, o planejado por trás do imediato. Só assim, talvez, as Mari-as deixarão de ser decoradoras de fachadas para serem engenheiras das marcas, com todo o respeito e reconhecimento que merecem.


Ah, ironia! Onde estaria, sem ti, essa sociedade? Onde estaria a criatividade portuguesa sem o seu amor eterno por complicar o simples? Só o tempo dirá. Mas, até lá, um brinde à Maria e a todos os que se esforçam para que o marketing seja finalmente reconhecido pelo que realmente é.

 
 
 

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